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De acordo com Epicuro, por que não devemos temer a morte?

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perguntada Jul 4, 2015 em Filosofia por danielcajueiro (5,376 pontos)  
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1 Resposta

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respondida Jul 18, 2015 por Giovanni Beviláqua (362 pontos)  
selecionada Jul 18, 2015 por danielcajueiro
 
Melhor resposta

A proposta de Epicuro está baseada em sua concepção de que o que
mais vale para a existência humana são os prazeres intelectuais e espirituais, que assim fundamentam sua filosofia hedonista ( do grego hedonè = prazer ). Os objetivos destes prazeres seriam nos levar à uma paz interior e completude da vida, numa clara oposição aos prazeres do corpo pois estes, segundo ele, trazem aos humanos sofrimentos, ansiedade e perturbam nossa alma.

Assim, trata-se de uma filosofia que também privilegia o tempo presente que é o único que É, umas vez que o passado já não é e o futuro ainda não é, logo é também, para usar os termos do filósofo contemporâneo André Comte-Sponville, uma filosofia do desespero ou desesperança, em que o termo aqui não é no sentido vulgar, mas no sentido de "não-esperança" e assim de concentração no momento presente.

Por isso, para Epicuro e seus seguidores, a morte não é algo a que devemos temer pois enquanto vivos, ela ainda não É e quando morremos, nós é que já não somos, isto é, ela é o grande desconhecido e a objeção de Epicuro é a que os humanos se deixam levar por ilusões, expectativas, ansiedades em querer saber como é estar morto,ou ainda, se há uma outra vida e como ela é. A morte é um ser desconhecido para nós e, portanto, como podemos passar nossa existência nos preocupando com ela?

Em suas palavras, temos:

"Habitua-te a pensar que a morte não é nada para nós, pois que o bem e o mal só existem na sensação. Donde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte não ser nada para nós permite-nos usufruir esta vida mortal, evitando que lhe atribuamos uma idéia de duração eterna e poupando-nos o pesar da imortalidade. Pois nada há de temível na vida para quem compreendeu nada haver de temível no facto de não viver. É pois, tolo quem afirma temer a morte, não porque sua vinda seja temível, mas porque é temível esperá-la.
Tolice afligir-se com a espera da morte, pois trata-se de algo que, uma vez vindo, não causa mal. Assim, o mais espantoso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais.
Não há morte, então, nem para os vivos nem para os mortos, porquanto para uns não existe, e os outros não existem mais. Mas o vulgo, ou a teme como o pior dos males, ou a deseja como termo para os males da vida. O sábio não teme a morte, a vida não lhe é nenhum fardo, nem ele crê que seja um mal não mais existir. Assim como não é a abundância dos manjares, mas a sua qualidade, que nos delicia, assim também não é a longa duração da vida, mas seu encanto, que nos apraz. Quanto aos que aconselham os jovens a viverem bem, e os velhos a bem morrerem, são uns ingénuos, não apenas porque a vida tem encanto mesmo para os velhos, como porque o cuidado de viver bem e o de bem morrer constituem um único e mesmo cuidado. "

Epicuro, in "A Conduta na Vida"

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