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Quais são as críticas usuais da literatura de sistemas complexos a representações chamadas de "Agente Representativo" ou "Campo Médio"?

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1 Resposta

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respondida Ago 21, 2015 por Marcelo B. Ribeiro (66 pontos)  
selecionada Ago 21, 2015 por danielcajueiro
 
Melhor resposta

Na literatura de sistemas complexos existe o fenômeno da emergência no qual propriedades novas aparecem no agregado do sistema. Assim, em um sistema com muitos componentes em interação e influência mútua aparecem propriedades que não são encontradas nos componentes individuais. Em outras palavras, tais propriedade aparecem no coletivo e somente existem no coletivo. Por isso se diz que tais propriedades "emergem" do e no sistema pois elas não podem ser encontradas individualmente. Portanto, se esse coletivo for desfeito essas propriedades simplesmente desaparecem pois são consequência do próprio coletivo.

Um exemplo típico é a Internet. Ela só existe porque computadores, milhares deles, estão interligados e em mútua interação. Não faz sentido falar em Internet em apenas um computador, ou mesmo em meia dúzia deles mesmo que interligados. A Internet é a própria interligação de milhares de computadores trocando informações, arquivos, e-mails, etc, em todos os instantes. É uma propriedade do coletivo. Se os computadores forem desconectados a Internet desaparece. Ela não existe nos componentes individuais do sistema, ou seja, nos computadores individuais.

Assim, em um sistema complexo não faz sentido falar-se em um agente representativo. É como se quisesse tentar descrever a Internet por meio de um "computador representativo". Obviamente isso não faz o menor sentido. A Internet é justamente o coletivo e não pode haver nenhum computador, ou agente, representativo do sistema chamado Internet.

Voltando a análise para sistemas econômicos, eles são resultado da interação de milhares de agentes, sejam firmas ou indivíduos, produzindo, comprando e vendendo. Assim, conceituando-se os sistemas econômicos como complexos, devem ser estudadas suas propriedades coletivas e não faz sentido se falar de uma firma representativa, ou de um agente representativo ao se conceituar um sistema econômico. As propriedades são macroscópicas e coletivas do sistema.

Como consequência, torna-se falacioso também se procurar sempre por uma análise micro de um sistema macro. Há sistemas macros, ou agregados, nos quais as propriedades macro simplesmente não estão contidas no micro, ou seja, nos componentes. O exemplo acima da Internet ilustra bem isso.

Tem sido comum se fazer uma analogia com a física, já que podemos conectar fenômenos macro, como pressão e temperatura, a fenômenos micro através da análise estatística dos átomos e moléculas. Mas, a física estatística, que procura fazer essa conexão, descreve fenômenos macro por meio da coletividade estatística micro. Mesmo assim com sérias limitações. Foi até hoje impossível se conseguir explicar a química apenas por meio das propriedades estatísticas das moléculas.

Sugiro a leitura da seguinte referência:

"More Is Different", P. W. Anderson, Science 177:4047 (1972) 393-396

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