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Como justificar usando o modelo de crescimento de Kaldor que um aumento exógeno da taxa de investimento irá produzir um aumento exatamente proporcional na taxa de poupança, numa economia fechada e sem governo?

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perguntada Out 8, 2015 em Economia por Alanodilio (1 ponto)  

Como justificar usando o modelo de crescimento de Kaldor que um aumento exógeno da taxa de investimento irá produzir um aumento exatamente proporcional na taxa de poupança, numa economia fechada e sem governo? O que acontece com a taxa de salário real (w/p) e com a participação dos salários na renda (W/Y) ao longo desse processo de ajustamento no mercado de bens ?

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1 Resposta

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respondida Dez 4, 2015 por Giovanni Beviláqua (372 pontos)  

Tomo aqui como referência para responder esta questão o artigo "O Modelo de Desenvolvimento de Kaldor" de Luiz Carlos Bresser-Pereira, publicado na Revista Brasileira de Economia, 29, 1975.

Bresser-Pereira, nota que Kaldor parte da visão macroeconômica de Keynes, mas busca enriquecê-la através de um retorno ao pensamento clássico de Ricardo e Marx através da consideração da distribuição de renda como variável relevante para o entendimento do crescimento e do desenvolvimento econômico.

Keynes levantou a hipótese de que a poupança era uma função da renda global. Esta hipótese foi acolhida por Harrod em seu modelo (ver modelo Harrod-Domar), isto é , S = s(Y) e é aqui que está a primeira modificação realizada por Kaldor, pois ele nega esta função e adota uma função de poupança que pode ser chamada de "função clássica" segundo a qual a propensão a poupar global depende da propensão a poupar dos capitalistas e da propensão dos trabalhadores, sendo que a primeira é maior que a segunda.

Numa economia fechada e sem governo, a renda total é igual a soma dos salários e lucros. A poupança depende da participação relativa de salários e lucros na renda, tendendo a ser maior quanto mais elevado for o grau de concentração de renda.

Desta forma, temos:

(1) Y (renda) = R (lucros totais) + W (salários totais)

(2) S (poupança total) = sr.R + sw.W,

onde sr é a propensão a poupar dos capitalistas e sw a propensão a poupar dos trabalhadores.

(3) S = I , S a poupança total e I o investimento planejado.

Supondo que a propensão a poupar dos capitalistas é maior que a dos trabalhadores, sr > sw e que, o equilíbrio se dá quando o investimento planejado pelos capitalistas for igual à poupança, podemos então realizar algumas substituições de variáveis nas equações e obtermos que :

I = (sr - sw )R + s_w.Y

Como I/Y = s, a propensão a poupar global, dividindo a última equação por Y, temos :

s = I/Y = (sr - sw).R/Y + s_w

Desta forma, a taxa de poupança da economia é igual à diferença entre as propensões a poupar dos capitalistas e trabalhadores multiplicada pela participação dos capitalistas na renda mais a propensão a poupar dos trabalhadores.

Isolando o termo R/Y, podemos verificar que dadas as propensões a poupar dos dois agentes da economia, capitalistas e trabalhadores, a participação dos capitalistas na renda depende da razão entre investimentos e renda e é mais significativa quanto mais o investimento for considerado independente do volume de poupança e esta é uma conclusão fundamental no modelo de Kaldor e aqui é uma retomada da hipótese keynesiana. Embora não sendo uma variável exógena, o investimento não é determinado pela poupança, mas, ao contrário, é o volume de investimentos que, através do multiplicador keynesiano, determina o nível de renda e consequentemente, a poupança, desde que haja desemprego e capacidade ociosa.

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