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Quais as principais diferenças entre as moedas privadas descritas por Hayek nos anos 70 e as criptomoedas atuais?

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perguntada Jan 22 em Economia por Stuart Mill (1,099 pontos)  
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1 Resposta

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respondida Jan 23 por Stuart Mill (1,099 pontos)  

Em 1976, Hayek publicou The Denationalization of Money (Desestatização do Dinheiro, em português). Nesta obra, o economista questiona a existência de um monopólio da emissão de dinheiro por parte do Estado, apontando as consequências negativas dessa política e propondo um novo sistema monetário baseado na competição de moedas privadas. Suas ideias, de certa forma, prenunciaram e inspiraram o surgimento de criptomoedas no final da década de 2000, com a Bitcoin.

No entanto, enquanto o mercado proposto por Hayek envolveria múltiplos bancos privados controlando a quantidade de suas respectivas moedas em circulação, as duas maiores criptomoedas no momento (Bitcoin e Ethereum), e várias outras menores, operam sob uma política de emissão descentralizada baseada em prova de trabalho (proof of work). Portanto, inexiste uma autoridade central controlando a quantidade de moeda de acordo com a reação do mercado (de seus clientes, isto é, dos indivíduos que utilizam sua moeda), e sim um algoritmo previamente estabelecido que distribui novas unidades monetárias (a uma taxa conhecida) para agentes que executem tarefas definidas a priori (as provas de trabalho).

Por outro lado, o principal motivo pelo qual os agentes prefeririam uma moeda em favor de outra, segundo Hayek, seria a capacidade dessa moeda conservar um valor estável, isto é, que o padrão de preços (definidos de acordo com as cestas de mercadorias mais importantes para os indivíduos, que seriam encontradas a partir do processo de competição) se mantivesse estável.

"A administração do dinheiro não pode ter como meta um volume de
circulação pré-determinado, nem no caso de um monopólio territorial
das emissões, muito menos no caso de moedas competitivas; seu objetivo
deve ser apenas o de descobrir que quantidade manterá constantes os
preços. Nenhuma autoridade é capaz de avaliar de antemão “a quantidade
ideal de dinheiro”, que só o mercado pode determinar. Essa quantidade
só pode ser obtida através da compra e venda, a um preço estável, do
conjunto de bens cujo preço agregado pretendemos manter estável."
- "Desestatização do Dinheiro", Hayek

A inflação nula seria portanto, segundo Hayek, justamente a dinâmica de preços mais desejável. Por quê?

A questão essencial é que, segundo o pensamento da escola austríaca, a inflação não é um processo homogêneo que, mantendo os preços relativos conservados, não tem efeito sobre as decisões de investimento, produção e consumo (em outras palavras, o lado real da economia). À medida que novas unidades de moeda chegam primeiro a alguns agentes e depois a outros, os preços relativos serão distorcidos. A inflação, para a escola austríaca, seria na verdade o aumento na quantidade de moeda, e o aumento dos preços, por outro lado, sua consequência.

No entanto, uma das principais características das criptomoedas, e tomando a Bitcoin como sua maior expoente, é justamente a volatilidade dos preços. Um dos motivos que podem estar por trás desse comportamento volátil é a motivação por trás da demanda por bitcoins: o motivo transacional parece ter dado lugar ao motivo especulação, conforme a terminologia keynesiana. Há algum tempo, a literatura econômica já chama atenção para a predominância da demanda de bitcoins como ativo especulativo em vez de como meio de pagamento (por exemplo, Böhme et al, 2015, e Zhu, Dickinson e Li, 2017, para revisões de literatura em relação a essa questão). Segundo a argumentação de Hayek, haveria uma tendência à estabilização dos preços nas moedas selecionadas pelo mercado, onde haveria equilíbrio entre oferta e demanda por moeda. Naquelas que apresentem variação persistente, seja de depreciação ou de apreciação, o mesmo não ocorreria:

A consideração decisiva a ter em mente diante do objetivo a que nos
propomos é que, num sistema de moedas múltiplas, não existe essa coisa
chamada a magnitude da demanda por dinheiro. Haverá diferentes
demandas por diferentes tipos de moeda; mas, uma vez que essas
diferentes moedas não serão substitutos perfeitos, essas demandas
distintas não podem ser somadas na mesma adição. Pode haver uma
demanda pequena (mas uma grande oferta) das moedas em depreciação;
haverá, esperamos, uma igualdade na demanda e oferta de moedas
estáveis (que é justamente o fator que manterá seus valores estáveis),
e uma grande demanda (mas uma pequena oferta) por moedas em
valorização. Muito embora, enquanto existir um mercado livre de
moedas, as pessoas vão estar dispostas a vender (a algum preço)
qualquer moeda, elas não hão de estar dispostas a manter em reserva
qualquer moeda; e as características dos substitutos disponíveis
afetariam a demanda por qualquer tipo de moeda em particular. Desta
forma, não haveria uma só quantidade cuja grandeza se pudesse
considerar decisiva para o valor do dinheiro.
- "Desestatização do Dinheiro", Hayek

É claro, o sistema proposto por Hayek se baseava em ofertantes privados de moeda, e não de uma regra previamente estabelecida para a emissão e distribuição de novas unidades monetárias. Esse certamente seria um impeditivo para a estabilidade do valor da moeda, uma vez que a oferta é incapaz de responder a mudanças na demanda de modo a impedir tanto a inflação quanto a deflação, conforme os conceitos que estas palavras têm no mainstream econômico.

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