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Por que o Brasil é um país tão conservador?

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perguntada Jan 26 em Política por Raíssa (671 pontos)  
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1 Resposta

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respondida Jan 26 por Stuart Mill (1,099 pontos)  

Se tomarmos conservadorismo como corrente política/ideológica, nascido com o Edmund Burke (também associado do liberalismo de Smith) no século 18, eu diria que o brasileiro não é muito conservador (pelo menos não CONSISTENTEMENTE conservador). Conheço apenas superficialmente o pensamento conservador, mas eu diria que seu maior princípio é o ceticismo em relação a mudanças extremas no funcionamento da sociedade em favor de mudanças incrementais, sendo portanto oposto ao pensamento revolucionário; esta postura também está associada ao ceticismo à capacidade humana de gerar instituições e modelos ideológicos desenhados para resolver os problemas da sociedade. Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda caracteriza o brasileiro justamente como avesso ao pensamento abstrato, às ideologias, em favor do comportamento "cordial", cuja consequência é o personalismo. O personalismo, sim, é um traço definidor da política brasileira. O incrementalismo, nem tanto: são várias as ocasiões em que medidas de curto prazo foram demandadas e aplicadas, em detrimento de possíveis malefícios de longo prazo, e que mudanças bruscas foram feitas e desfeitas na área econômica e política do Estado brasileiro.

Dito isso, o que os brasileiros de fato compartilham são opiniões conservadoras a respeito de temas específicos, sem, no entanto, compartilharem dos fundamentos abstratos e do arcabouço argumentativo que o sustenta (esse é o principal motivo pelo qual as opiniões políticas muitas vezes não são consistentes internamente). Geralmente, no debate público, é comum que se caracterize a opinião política de um indivíduo baseado em sua opinião política a respeito de temas chave, como o aborto, a legalização das drogas, privatizações, posse de armas, etc., como se fosse um quiz. No entanto, embora útil, esse método pode levar a conclusões enganosas, na minha opinião.

Por que, então, em muitas dessas questões-chave , o brasileiro médio assume posições conservadoras? Na minha opinião, o motivo mais importante é a predominância do cristianismo na sociedade brasileira. Por exemplo, em discussões sobre aborto, me parece ser uma consequência dos dogmas religiosos que a maior parte da população seja contra.

comentou Jan 27 por Raíssa (671 pontos)  
Não especifiquei bem a pergunta, não seria nesse sentido de conservadorismo de Burke ao qual vc se refere. De fato, se pegarmos o sentido de conservador e de liberal por esses termos, não encontraríamos ou encontraríamos com dificuldade alguma espécime dessas definições. Digo em especial ao sentido mais usual do termo. É um país que cresce um discurso ao ""cidadão de bem''"", o qual seria o cidadão conservador, que preserva o status quo. Conservador nos costumes que me refiro. Sim, pode ser em relação ao cristianismo, mas mesmo assim acho bastante contraditório, pois somos uma sociedade muito violenta.
comentou Jan 27 por Stuart Mill (1,099 pontos)  
Você está certa. A contradição, a falta de coerência interna nas posições assumidas pelo eleitor mediano (acho que de modo geral todos estão sujeitos a contradições lógicas, mesmo acadêmicos, pensadores, etc.), na minha visão, podem ser consequência justamente da inexistência de um apego muito ferrenho a uma ideologia ou outra, a um modelo abstrato e completo sobre o funcionamento da sociedade (essa é uma tese presente em Raízes do Brasil). Certamente, questões econômicas, sociais e culturais impactam de modo diverso os indivíduos que compõem a sociedade.

Em relação ao cristianismo, acredito que sua natureza permita interpretações diversas e possivelmente conflitantes. A doutrina cristã inclui duas partes frequentemente conflitantes, o Velho e Novo Testamentos, que por sua vez são coleções de escritos de autores diversos, feitos em épocas diversas, escritos em múltiplas línguas e submetidos a múltiplas traduções. Depois disso, vieram ainda várias interpretações e debates teológicos, cismas, etc. Portanto, mesmo teoricamente, o cristianismo inclui ideias possivelmente conflitantes, não é um sistema lógico fechado (é uma doutrina religiosa). Além do mais, historicamente, não são raras as situações em que o cristianismo foi evocado em nome da violência. Portanto, para resumir, embora possa ser argumentado com boas razões para essa contradição, esta já é recorrente na história, e pode ser consequência das múltiplas interpretações e enfoques que os textos religiosos permitem.
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