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Existem livros de histórias bem escritos que discutem problemas interessantes dentro de seu enrredo?

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perguntada Fev 4 em Literatura por estudante (496 pontos)  

Estou me referindo a livros como o "Mundo de Sofia" de Jostein Gaarder que inclui questões interessantes de filosofia ou O "homem que calculava" de Malba Tahan que inclui problemas básicos de matemática no enrredo.

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1 Resposta

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respondida Fev 6 por Stuart Mill (1,099 pontos)  
selecionada Fev 6 por danielcajueiro
 
Melhor resposta

Vou fazer indicações específicas para livros distópicos que discutem a sociedade e o papel do Estado:

  • 1984, George Orwell: Um livro clássico de distopia, apresenta um mundo em que os indivíduos são controlados constantemente pelo aparato estatal (inclusive vigiados em casa com as "teletelas"), a maior parte da população vive em miséria ou de forma no mínimo frugal, e uma pequena parcela ligada ao partido vive numa condição superior. Orwell, nesse mundo fictício, descreve como o partido se usa de sua propaganda para determinar aquilo que as pessoas devem ou não pensar, alterando inclusive acontecimentos do passado. Por exemplo, em certo momento duas das superpotências que eram aliadas (entre Eurásia, Lestásia e Oceania) entram em guerra, e a propaganda muda todo os registros existentes para dizer que os dois países sempre estiveram em guerra. Até mesmo a língua é modificada, tornando-se a "novilíngua", de modo a controlar o pensamento e o modo dos indivíduos se expressarem. Um dos conceitos mais interessantes introduzidos no livro é o "duplipensar":

Doublethink is the act of simultaneously accepting two mutually contradictory beliefs as correct, often in distinct social contexts. Doublethink is related to, but differs from, hypocrisy and neutrality. Also related is cognitive dissonance, in which contradictory beliefs cause conflict in one's mind. Doublethink is notable due to a lack of cognitive dissonance—thus the person is completely unaware of any conflict or contradiction.

Eu tenho a impressão que Orwell talvez tenha se inspirado na dialética marxista para criar esse conceito.

  • Admirável mundo novo, Aldous Huxley: Este livro também é uma distopia bem semelhante a 1984 (inclusive Huxley foi professor de Orwell). Só que diferente do mundo orwelliano, a pergunta feita aqui é: O que aconteceria se o Estado tomasse controle mas, em vez de meios violentos, buscasse sempre maximizar o prazer de todos e evitar toda a dor (um Estado maximizador da utilidade de Bentham)? Nesse mundo, cada indivíduo, ao nascer, é atribuído a uma classe (de Alfa a Ômega) e condicionado para executar as tarefas daquela classe. Por exemplo, os Ômegas são condicionados a gostar do calor e odiar o frio para trabalhos em fábricas, de modo que, ao nascer, só sentem prazer executando esse tipo de trabalho, e os trabalhos das classes mais altas se tornam desconfortáveis. Toda a produção é controlada pelo Estado, e os indivíduos são influenciados a pensar e falar frases, que são ensinadas enquanto dormem, que desencorajem qualquer questionamento. Os indivíduos são condicionados também a tomar soma, uma droga para qualquer frustração que aconteça. Esse Estado não precisa da violência totalitária de 1984, pois consegue controlar a população através de uma alienação ideológica e psicotrópica. Acho que um questionamento que o livro traz para economistas é em relação à visão utilitarista de bem-estar (em especial, o bem-estar agregado dos indivíduos).
  • A Revolta de Atlas (Atlas Shrugged), Ayn Rand: Se "1984" é uma distopia de um Estado totalitário vigiando a todos, "Admirável Mundo Novo" uma distopia de um Estado totalitário "utilitarista", "Atlas Shrugged" é uma distopia de um EUA onde a intervenção e a regulação estrangulam a economia e a sociedade. Esse livro provavelmente é de aceitação mais difícil do que os dois anteriores, despertando ou amor ou ódio nos leitores (isso sem falar nas ideias controversas da própria autora, e da doutrina filosófica que desenvolveu). De qualquer modo, como um romance o livro tem uma história instigante e ideias originais são repercutidas pelos personagens, que portam na verdade a filosofia objetivista de Rand, que prega o individualismo e egoísmo ao extremo.
comentou Fev 6 por danielcajueiro (5,666 pontos)  
Resposta muito boa!
comentou Fev 11 por Raíssa (656 pontos)  
Acrescentaria o livro Utopia do Moore! Que curiosamente foi o livro preferido de Keynes durante sua adolescência. Espírito utópico que se manteve durante toda a obra de Keynes em especial no ensaio Economic possibilities for our grandchildren http://www.econ.yale.edu/smith/econ116a/keynes1.pdf
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