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Por que Mises é tão popular no Brasil?

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perguntada Fev 11 em Economia por Raíssa (671 pontos)  

Posso estar equivocada, mas uma rápida pesquisa no google trends indica que o autor da escola austríaca é bastante pesquisado no país. Além de algumas camisetas e cartazes que já vi por aí escritos :"mais Mises menos Marx". Formulada de outra forma, a pergunta seria: quem trouxe a teoria de Mises para o país?

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1 Resposta

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respondida Fev 13 por Stuart Mill (1,124 pontos)  
selecionada Fev 16 por Raíssa
 
Melhor resposta

É uma boa pergunta, vou tentar responder a partir de minhas impressões e observações de pessoas ligadas à escola austríaca e do ambiente ideológico geral no Brasil.

Primeiramente, eu não acho que Mises seja popular no Brasil. O que pode ser é que seja um autor que teve um crescimento mais rápido do que outros, mas em termos absolutos certamente o pensamento misesiano ainda é minoritário, mesmo se comparado a escolas heterodoxas como os marxistas e os pós-keynesianos (pelo menos no campo acadêmico). O número de trabalhos marxistas e pós-keynesianos sendo feitos é muito maior que trabalhos sobre Mises.

De fato, é interessante pensar no porquê do crescimento de sua popularidade no país. Acho que de forma geral, no Brasil, houve um fortalecimento da direita no campo político, que veio acompanhada do fortalecimento das ideias de alguns autores associados a esse espectro, incluindo autores conservadores e liberais.

A questão então se torna: por que o direcionamento maior à busca por trabalhos do Mises em vez de outros autores liberais clássicos, como Smith, Ricardo, J. S. Mill, etc. ? Vou colocar 2 pontos que eu acho fundamentais:

  • No Brasil o pensamento heterodoxo de esquerda é bem desenvolvido e influente (marxistas e pós-keynesianos). A maioria dos autores liberais clássicos escreveu em um período anterior ao desenvolvimento dessas ideias, no máximo em um período em que o pensamento socialista era incipiente e pré-marxista. Ou seja, eles não responderam a muitas das críticas que vieram depois pelo motivo óbvio, senão por qualquer outro, de que a maioria das críticas não tinham sido bem formuladas em seu período de vida. A tradição do liberal "pós-socialista", digamos assim, seria trazida de novo pelo Mises, fazendo um elo entre o pensamento liberal clássico + marginalistas que iriam influenciar mais tarde tanto os autores posteriores da escola austríaca como a própria escola de Chicago. Portanto, de um ponto de vista do mercado de ideias, me parece fazer sentido que muitos os indivíduos que não compactuem com as ideias dos grupos heterodoxos de esquerda buscassem uma referência em Mises e em autores associados (Hayek, Friedman, Rothbard) principalmente pela crítica direta desses ao intervencionismo e socialismo em extensos trabalhos. É interessante notar que os autores socialistas tiveram que alocar grande parte de seu trabalho à crítica ao capitalismo e ao liberalismo para argumentarem por um modelo alternativo. Os autores liberais clássicos não fizeram o mesmo, e os da escola austríaca sim.

  • Outro ponto importante provavelmente é a presença da versão brasileira do Instituto Mises (que existe em vários países) divulgando ativamente o pensamento misesiano e da escola austríaca. Ou seja, houve um esforço ativo e deliberado de alguns indivíduos para divulgar as ideias da escola austríaca publicando livros antes não disponíveis em português e disponibilizando-os de graça no site, por exemplo; promovendo palestrar, debates ao redor de artigos; e promovendo a divulgação dessas ideias no âmbito acadêmico com a revista própria deles. Acho que uma das consequências disso foi conseguir alcançar pessoas não economistas de diferentes áreas, favorecendo o crescimento de sua popularidade (na verdade, me parece até que a maior parte são não economistas que buscaram estudar os autores por conta própria, mas não tenho dados para corroborar isso).

comentou Fev 16 por Raíssa (671 pontos)  
Excelente resposta! De fato, era melhor eu ter colocado em termos de crescimento de popularidade! Só pontuo que há uma certa dicotomia que muitas vezes não se sustenta na realidade da teoria! Por exemplo Walras tem obras progressistas, as quais poderiam até definí-lo até como um "socialista", mas o autor francês foi associado essencialmente à ideia de equilíbrio geral.
comentou Fev 17 por Stuart Mill (1,124 pontos)  
Sem dúvidas, muitas vezes existem grandes autores que foram bastante ecléticos e tiveram pontos específicos adotados por lados opostos nas discussões econômica (ao menos em certos pontos). Alguns exemplos eu acho que foram, por exemplo, Ricardo, Mill, Schumpeter, e até o próprio Smith, além do Walras que você citou, cujas obras eu não conheço fora dos resultados marginalistas. O engraçado é que o Mill tinha posições às vezes até mais extremas em relação ao laissez-faire do que outros economistas considerados "radicais", enquanto que em outros pontos ele era mais progressista. E até chegou a defender o socialismo em diversos momentos como superior, a sua crítica era apenas em relação à factibilidade dele (o impedimento moral dos indivíduos a adotá-lo, e não ao sistema em si); no entanto, até isso é meio complexo, porque o que esses autores entendiam por socialismo é bem diferente do que hoje nós nos referimos quando falamos de socialismo; o Marx mais tarde refutaria quase todos os socialistas "utópicos" que vieram antes dele.
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