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Qual a visão marxista de HPE sobre Smith?

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perguntada Fev 8 em Economia por Stuart Mill (1,424 pontos)  
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1 Resposta

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respondida Fev 8 por Stuart Mill (1,424 pontos)  
editado Fev 11 por Stuart Mill

A minha minha resposta a seguir se baseará no livro "História do Pensamento Econômico" do Hunt, capítulo 3, e serve como um resumo para auxiliar os estudos dos estudantes de HPE da UnB.


O primeiro autor da economia política clássica sobre o qual Hunt discorre é Adam Smith. Smith escreve em um contexto de intensas inovações tecnológicas, cujas aplicações para a indústria nascente seriam essenciais à Revolução Industrial que viria. O grande crescimento das exportações inglesas também gerava incentivos ao aumento da produção para se atender a demanda externa.

Para Smith, os estágios do desenvolvimento de uma sociedade são a caça, o pastoreio, a agricultura e o comércio. Conforme as sociedades passam para estágios mais avançados, os direitos de propriedade se tornam mais definidos (e também surge a necessidade de um governo para garantir essa propriedade). No último estágio, seria alcançada a eficiência máxima, com indivíduos realizando trocas mutuamente benéficas, com especialização na produção e acúmulo de riquezas materiais. Esse estágio seria, para Smith, o ápice da evolução social. Na sociedade capitalista, as três rendas que compõem a produção anual definem as três classes sociais: os trabalhadores, que recebem salários; os proprietários de terra, que recebem aluguéis; e os capitalistas, que recebem lucro.
Smith também influenciou a teoria do valor-trabalho, ao perceber que a produção pode ser reduzida a uma série de esforços humanos. Todo o capital existente pode ser reduzido a trabalho humano realizado. No entanto, Smith considera que o trabalho determina o valor de troca apenas em economias onde ainda não existe acumulação de capital. Nessas sociedades iniciais, todo o produto do trabalho pertencia ao trabalhador e não havia propriedade desenvolvida sobre o capital ou sobre as terras. Numa sociedade onde existem capitalistas e proprietários de terra, no entanto, o preço é explicado pela chamada Teoria de Soma de Smith: o preço é igual à soma dos salários, lucros e aluguéis. O preço natural remuneraria os fatores de produção com as três rendas médias, e o preço de mercado flutuaria devido a movimentações de oferta e demanda, mas orbitaria em torno do preço natural. Entretanto, Hunt ressalta ambiguidades em relação ao valor-trabalho na obra de Smith, já que em alguns momentos este continua considerando o valor-trabalho como válido para determinar o preço em sociedade capitalistas, mesmo tendo rejeitado essa noção em outros momentos.

Em relação ao bem-estar econômico, Smith defendia a ideia de que os motivos egoístas dos indivíduos conduziriam a sociedade como um todo ao bem-estar geral (a Mão Invisível), com a produção atendendo ao desejo social por determinadas mercadorias. O melhor que se pode fazer é permitir a livre concorrência e mínima intervenção do governo nas relações econômicas (o laissez-faire). Intervenções e regulamentações promoveriam alocações ruins de capital, distanciando a economia de seu bem-estar potencial. Desse modo, Smith se afasta dos mercantilistas ao defender a liberdade econômica no plano interno e externo como propulsora do crescimento econômico, na medida que a acumulação do capital permite o aprofundamento da especialização do trabalho. Smith também se diferencia dos fisiocratas, ao defender que a riqueza também vem da indústria, não só da agricultura (e depende principalmente dos lucros, por permitirem a acumulação de capital, o que por sua vez aumenta a divisão do trabalho e a eficiência). A divisão do trabalho mais importante seria entre a agricultura rural e a indústria urbana. Esses seriam os dois primeiros estágios do desenvolvimento econômico, sendo o comércio exterior o último estágio. O trabalho produtivo, nesse processo, seria aquele que contribui para a acumulação de capital (dá lucro para os capitalistas e produz mercadorias palpáveis). Logo, um trabalhador da indústria seria produtivo, diferentemente da noção dos fisiocratas. Os trabalhos improdutivos são aqueles que não geram lucro. Hunt, citando Dobb, aponta uma incompatibilidade entre as definições de Smith para o trabalho produtivo, uma vez que serviços, por exemplo, poderiam gerar lucros quando empregados por capitalistas. Em relação ao papel do governo dentro na sociedade, este desempenha três funções, para Smith: proteger a nação contra a guerra; proteger cidadãos contra injustiças de outros cidadãos; e realizar obras públicas que seriam inviáveis para pequenos grupos, mas seriam benéficas à sociedade como um todo.

Embora o sistema econômico de Smith levasse à harmonia social, o conflito de classes continua presente. O conflito de classes surge do uso do conceito do valor-trabalho: o salário deriva de uma luta entre trabalhadores e capitalistas, ao mesmo tempo que o governo busca garantir a possibilidade de organização capitalista e impedir a organização dos trabalhadores nessa disputa. Além disso, Smith também estava ciente que a divisão do trabalho tornaria o trabalhador torpe, enquanto este executasse a mesma tarefa simples repetidamente, ad infinitum. Essas contradições entre o conflito de classes da teoria do valor-trabalho e a harmonia social do livre comércio também estariam presentes em Ricardo, como veremos à frente.

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