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Qual a visão marxista de HPE sobre Malthus?

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perguntada Fev 15 em Economia por Stuart Mill (1,379 pontos)  
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1 Resposta

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respondida Fev 15 por Stuart Mill (1,379 pontos)  

A minha minha resposta a seguir se baseará no livro "História do Pensamento Econômico" do Hunt, capítulo 4, e serve como um resumo para auxiliar os estudos dos estudantes de HPE da UnB.


No esquema de classes de Smith, Malthus certamente se encaixaria como defensor ideológico da classe dos proprietários de terra. Malthus vive em um momento em que as mudanças da Revolução Industrial ocasionavam uma série de conflitos de classe. Nos séculos XVIII e XIX, era comum que trabalhadores vivessem em condições precárias e trabalhassem em regimes desumanos, enquanto o aumento rápido da população das cidades era acompanhado por uma deterioração das condições de vida.

No fim do século XVIII e início do XIX, Malthus busca rejeitar a validade das ideias dos reformadores (Godwin e Condorcet) que defendiam melhorias de condições de vida para a classe trabalhadora. Malthus argumenta que a divisão da sociedade em classes sociais era inevitável, e sempre reapareceria; além disso, argumenta pela também inevitabilidade da miséria da maioria das pessoas, algo que não poderia ser evitado. Essa consequência natural derivaria da Teoria da População de Malthus: as pessoas seriam impelidas por um desejo sexual incontrolável, causando um aumentos populacionais que crescem em proporção geométrica. Como a produção de alimentos cresceria em proporção aritmética, a grande massa de indivíduos seria condenado a viver na miséria, sendo a fome a inescapável limitadora do crescimento populacional. Para Malthus, os pobres não teriam as restrições morais que impediriam a reprodução descontrolada (os controles preventivos); essas restrições só seriam válidas para os ricos. Redistribuições dos ricos para os pobres apenas causaria aumentos populacionais que fariam os últimos a voltarem ao nível de subsistência (ou esbanjariam o dinheiro em "bebida, jogo e farras", nas palavras do próprio Malthus). Em algumas passagens, até se recomenda que a morte dos pobres fosse facilitada com pragas e doenças, de modo a refrear o aumento populacional desordenado (que era uma das características das cidades inglesas no período). Os ricos seriam os verdadeiros responsáveis pela acumulação de riquezas e o desenvolvimento cultural da nação.

Diferentemente de Smith, Malthus dividia os estados da sociedade entre o não civilizado e o civilizado, sendo que este último exige a existência de classes de proprietários e trabalhadores. Sua visão do capitalismo como governado pela troca (oferta e procura) direcionava o resultado social, eventualmente, à harmonia, apesar dos conflitos. As trocas seriam mutuamente benéficas e atenderiam aos interesses da sociedade, e a existência da propriedade seria uma lei natural. Os interesses tanto dos capitalistas quanto dos trabalhadores seriam alcançados desde que os interesses dos proprietários de terra fossem defendidos.

Em relação ao preço, Malthus julgava que o trabalho contido em um produto era a melhor medida do valor, ao mesmo tempo que o preço seria composto pelos salários, aluguéis e lucros. Diferentemente do que defendia Smith, o preço não necessariamente tenderia a um preço natural; seria determinado apenas pela oferta e demanda.. A produção se daria por uma troca de insumos produtivos, e cada classe contribuiria com o insumo que controla. Malthus defende os proprietários de terra, contrapondo-se a Smith, por contribuírem para a produção com o insumo que têm em troca daquilo que desejam (assim como todas as outras classes). A propriedade de terras, do capital e da força de trabalho seriam todos componentes importantes da produção. Como, para Malthus, o capital não seria constituído de trabalho passado, os lucros seriam a remuneração dos capitalistas por sua contribuição produtiva, e não um resíduo do processo produtivo (como defendia Smith). A renda da terra, por sua vez, seria o resultado de diferenças na fertilidade dos solos e a subsequente competição pelas terras mais férteis (ideia também presente em Ricardo e que será detalhada mais à frente).

É em sua Teoria da Superprodução que Malthus mais claramente argumenta pela defesa dos interesses dos proprietários de terra como propulsora do bem-estar geral. Enquanto Smith argumentava que o capitalismo nunca passaria por problemas de falta de demanda efetiva, Malthus afirmava que os padrões de gastos das três classes poderiam gerar esses problemas. Os trabalhadores gastariam toda sua renda em consumo de subsistência; os capitalistas gastariam na acumulação de capital. Os proprietários de terra, entretanto, viviam de um fluxo contínuo de rendas sobre sua propriedade e teriam tempo e recursos para gastar suas rendas em artes, educação e cultura, além de bens de consumo e serviços pessoais. Uma vez que a mão de obra que pudesse ser incorporada à produção estava limitada ao crescimento populacional, em certo ponto do processo de acumulação de capital poderia haver escassez de trabalhadores. Isso se refletiria em salários crescentes, que reduziriam os lucros. Os capitalistas decidiriam, então, entesourar em vez de gastar suas rendas em capital, já que não receberiam o mesmo retorno, e isso levaria à falta de demanda efetiva. Hunt ressalta que essa análise entra em contradição com a Teoria da População, já que aumentos nos salários deveriam ocasionar aumentos populacionais à mesma proporção da acumulação de capital, desde que este taxa fosse estável. Se, por outro lado, o capital viesse acompanhado de mudanças tecnológicas poupadoras de trabalho, o aumento do desemprego também reduziria a demanda efetiva (esta sendo, portanto, a tendência para Malthus).

Os proprietários de terra seriam os responsáveis por suprir essa demanda efetiva, contratando muitos trabalhadores, criados e prestadores de serviços pessoais. Os trabalhadores improdutivos seriam empregados por essa classe como criados. Consumindo riqueza material sem produzi-la, os proprietários de terra resolveriam o problema da demanda efetiva. Esse raciocínio explica o posicionamento de Malthus a favor dos proprietários de terra nas discussões em relação às leis dos cereais na Inglaterra de seu tempo, uma vez que as restrições às importações de cereais garantiriam as rendas dessa classe, que evitaria desequilíbrios entre oferta e demanda. Como Hunt e Ricardo observam, no entanto, não havia motivos lógicos que justificassem tal redistribuição de renda em favor dos proprietários de terra em vez, por exemplo, dos trabalhadores. As conclusões de Malthus nesse quesito estavam, no fim, alinhadas a suas orientações de classe.

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