Primeira vez aqui? Seja bem vindo e cheque o FAQ!
x

Explorando o paper "Individuals, Institutions and Innovation in the Debates of the French Revolution"

0 votos
12 visitas
perguntada Nov 5 em Ciência Política por pedro zarur (6 pontos)  

Os autores são Alexander T. J. Barron, Jenny Huang, Rebecca L. Spang e Simon DeDeo.

Compartilhe

1 Resposta

0 votos
respondida Nov 5 por pedro zarur (6 pontos)  
editado Nov 6 por pedro zarur

A Revolução Francesa foi um fenômeno sem precedentes na História. As bases tradicionais das estruturas política, econômica e social ruíam rapidamente diante do povo, furioso com a miséria no país, enquanto grupos políticos adversários tentavam controlar os rumos da revolução. Depois da queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, a Assembleia Nacional Constituinte passou a desempenhar, de fato, o papel de governo francês.

O artigo a ser discutido aqui se propõe a quantificar a propagação de padrões retóricos nos discursos da Assembleia, além de analisar o papel da habilidade individual e a importância das instituições.

Os autores, por meio do algoritmo Latent Dirichlet Allocation (LDA), modelaram os discursos como distribuições de tópicos (e os tópicos como distribuições de palavras). Dessa maneira, foi possível aplicar a Divergência de Kullback-Leibler para medir até que ponto as distribuições de probabilidade diferem entre si.

Assim, a "surpresa" do \(j\)-ésimo discurso \(s^{(j)}_{i}\), representado por uma distribuição de probabilidade em relação a \(K\) tópicos com \(1 \leq i \leq K\), relativa ao discurso imediatamente anterior \(s^{(j - 1)}_{i}\) é dada por

\(KLD(s^{(j)} | s^{(j - 1)}) = \sum\limits_{i=1}^{K} s^{(j)}_{i} log_{2} (\frac{s^{(j)}_{i}}{s^{(j - 1)}_{i}})\)

No contexto do artigo, a KLD de um discurso em relação a discursos anteriores mede a “novidade” (no original, "novelty") do discurso, e em relação a discursos posteriores mede a sua “transitoriedade” (no original, "transience"). Definimos a novidade do discurso \(s^{(j)}\) na escala temporal de \(w\) discursos como

\(N_{w}(j) = \frac{1}{w} \sum\limits_{d=1}^{w} KLD(s^{(j)} | s^{(j - 1)})\)

Analogamente, definimos sua transitoriedade como

\(T_{w}(j) = \frac{1}{w} \sum\limits_{d=1}^{w} KLD(s^{(j)} | s^{(j + 1)})\)

O diagrama abaixo ilustra essa ideia

A imagem será apresentada aqui.

É definido ainda mais um conceito para analisar os discursos: a ressonância. Um discurso ressonante é aquele que quebra padrões retóricos anteriores mantendo-se influente no futuro. Assim, a ressonância de um discurso em uma escala \(w\) é dada por

\(R_{w}(j) = \frac{1}{w} \sum\limits_{d=1}^{w} [KLD(s^{(j)} | s^{(j - 1)}) - KLD(s^{(j)} | s^{(j + 1)})] = N_{w}(j) - T_{w}(j)\)

Essa abordagem teórica permite uma análise muito interessante. Podemos chegar à conclusão, por exemplo, que o sistema possui um viés em favor da inovação. Isto é, ele está fora de equilíbrio (os discursos de um sistema em equilíbrio apresentariam, na média, novidade e transitoriedade iguais, zerando a ressonância). Esse viés é medido por \(\Gamma\), a inclinação da reta de regressão novidade-ressonância, apresentada abaixo em uma escala de \(w = 7\) discursos

A imagem será apresentada aqui.

Outro fato interessante a se notar é a qualidade dos discursos. A tabela abaixo apresenta os trinta oradores mais comuns com suas novidades e ressonâncias médias padronizadas em \(z\)-score em uma escala \(w = 36\). Definimos \(\Delta z(R) = z(R) - E[z(R) | z(N)]\), ou seja, uma medida de ressonância levando em conta o viés de inovação do sistema.

A imagem será apresentada aqui.

A esquerda contava com oradores habilidosos como Robespierre e Villeneuve que não só alcançaram as mais altas ressonâncias médias do sistema mas também ressonâncias significativamente altas mesmo levando em conta o fato da Assembleia ser enviesada (\(Δz(R) > 0\)).

A direita foi capaz de exercer influência no sistema (\(z(R)\) e \(Δz(R)\) positivos) apesar de sua baixa novidade. Isso ocorreu graças ao talento de oradores como Maury e Cazalès.

Com o crescente fluxo de informação e a necessidade de organizar tópicos de discussão técnicos, surgiram os comitês. Seus membros eram selecionados por seus conhecimentos específicos e tinham o dever de produzir conteúdo e propor medidas para discussão e aprovação (ou rejeição) da Assembleia. Na figura abaixo observamos a influência dos comitês em dois períodos, antes e depois do final de 1790.

A imagem será apresentada aqui.

Em um primeiro momento, os tópicos introduzidos por membros dos comitês (new-item committee) tinham aproximadamente a mesma ressonância de tópicos de novidade similar no sistema como um todo. Entretanto, os parlamentares membros dos comitês, devido ao prestígio e/ou expertise, tinham uma habilidade superior em guiar os debates subsequentes (in-debate speech).

Em um segundo momento, a ressonância de novos tópicos introduzidos pelos comitês passou a ser anormalmente baixa. Após análise dos discursos e do contexto político, chegou-se a conclusão de que isso, na verdade, era consequência do crescente poder dos comitês: os tópicos passaram, cada vez mais, a serem aceitos com discussão mínima.

Portanto, podemos concluir que:

\(i)\) Indivíduos podem quebrar padrões estabelecidos no sistema. Ou seja, a habilidade retórica individual foi de extrema importância no direcionamento da Revolução Francesa.

\(ii)\) Uma nova dimensão do jogo político passou a tomar forma com a ascensão dos comitês: parlamentares que dominavam a lógica institucional ganharam novos poderes para moldar a legislação revolucionária.

Para controlar esse sistema político é de extrema importância que seja feito o balanceamento entre essas duas dimensões de influência. Os jacobinos (isto é, a esquerda), contando com mestres da retórica e burocratas que rapidamente entenderam o funcionamento dos comitês, passaram cada vez mais a controlar (e radicalizar) a revolução. A nobreza e o clero passaram a fugir do país em ritmo cada vez mais acelerado. Quando a situação colapsou em 1793 e a França mergulhou no caos, o Comitê de Segurança Pública, liderado por Robespierre, efetivamente substituiu o governo e executou milhares de “inimigos da revolução”. Inclusive diversos oradores estudados no artigo.

...