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É possível alguém simular que possui ouvido absoluto?

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perguntada Abr 18, 2015 em Artes por riddleJedi (101 pontos)  
reclassificado Abr 18, 2015 por danielcajueiro

Não entendo nada de notas musicais. Conheci uma pessoa, com boa abstração matemática e que tocava piano há bastante tempo. Perguntei se ele tinha ouvido absoluto. Ele me respondeu que não. Porém, disse que conseguia "enganar" as pessoas, pois embora não tivesse certeza exatamente de uma nota, fazia rapidamente contas de cabeça e identificava corretamente o tom musical (que seria mais provável). Isso procede?

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1 Resposta

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respondida Abr 18, 2015 por marcelo_papini (306 pontos)  
editado Abr 18, 2015 por danielcajueiro

Inicialmente, fixemos a nomenclatura.

Dizemos que o sujeito A tem percepção RELATIVA das notas musicais se, fornecida uma nota (tocada no piano ou no violino ou produzida nos telefones como "som de linha"), ele é capaz de reconhecer outra nota. Nesse caso, o sujeito A não efetua "rapidamente contas de cabeça" mas imagina (mentalmente ou, se o quiser, entoa as notas correspondentes) um acorde apoiado na nota primeiramente fornecida (que servirá como situante ou, como preferem dizer as pessoas que copiam palavras da língua inglesa, como referencial) e reconhecerá outra nota musical que lhe seja apresentada.

Já um sujeito B dotado de "ouvido absoluto" ou, melhor dizendo, de percepção absoluta das notas musicais reconhece imediatamente qualquer nota que seja produzida na sua presença. Não sei se já foi esclarecido o mecanismo psíquico ou fisiológico que é usado em tal identificação mas o sujeito B tampouco o sabe, pois a atuação desse mecanismo é tão rápida que lhe parece imediata (isto é, destituída de mediação, como ocorre no caso do sujeito A).

Mas o quesito não se encerrra nesses dois fatos, pois mesmo entre as pessoas dotadas de "ouvido absoluto" podem ocorrer gradações. Por exemplo, na capacidade de se perceberem acordes (o ambiente harmônico) ou fugas que estejam sendo executadas simultaneamente.

Conta-se que se executava, na Capela Sixtina, uma vez por ano (na quarta-feira da semana santa), um Miserere de Gregorio Allegri, peça essa da qual se conservava a partitura em segredo (no Vaticano). Trata-se de uma peça polifônica, cuja execução despende cerca de doze minutos.

Amadeus Mozart, quando tinha doze anos, em viagem com o pai pela Europa, estava em Roma exatamente em uma semana santa e escutou o citado Miserere. Terminada a cerimônia litúrgica, tendo voltado ao lugar no qual estavam hospedados, Mozart transcreveu no papel toda a partitura do Miserere, ignorante das penas que seriam infligidas a quem a divulgasse.

Mas, nessa anedota, não se diz se Mozart reproduziu a peça na mesma tonalidade na qual a escutou (o que, aliás, é secundário). Se tal fato for verdadeiro, causarão muito maior perplexidade a capacidade de perceber toda a harmonia da peça e a memória que reteve tal riqueza sonora.

Como curiosidade, informo que o "som de linha" nos telefones é o nosso "lá quatro" ou, como se diz em outros países que usam a escala de "A" até "G", é o "A 440", por corresponder à frequência de 440 Hz.

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